09/02/2013


'Precursor' na cobertura do futebol europeu, Décio revela
paixão por esportes e exalta acerto na escolha da profissão

Vinícius Dias

Nos anos 1970, mesmo com dificuldades, Décio Lopes, junto com a família, costumava acompanhar as transmissões esportivas. "Víamos e ouvíamos jogos de todos os esportes", conta. Tempos depois, já no jornalismo, e influenciado pelo destino, ele fez a escolha: cobriria esportes. 14 anos de carreira na TV Globo, e a decisão de mudar-se para Paris. Em um novo cenário, o desejo de inovar, levando ao público brasileiro a cobertura do futebol europeu. "Talvez eu tenha percebido antes das outras pessoas", acrescenta.

No sangue, a paixão por esportes
(Créditos: Facebook/Reprodução)

Por meio do Expresso da Bola, Décio trouxe à programação do SporTV a realidade de vários atletas e nações. Culturas, futebol e ídolos diversos, hoje, ao alcance dos muitos apaixonados. Em coberturas, viveu emoções várias. Destaque para a Copa conquistada pelo país, em 2002, e para o Rally Paris-Dakar, em 2000. "Foi uma experiência sofrida para 'caramba', mas marcante. Inesquecível", diz.

Quando você optou pela carreira de jornalista? Algum familiar ou profissional de sucesso lhe influenciou no gosto pela comunicação esportiva?

Minha família sempre foi apaixonada por esporte. Todos. Víamos e ouvíamos todos os jogos de todos os esportes. Sempre. E olhe que naqueles tempos, de anos 1970, era 'pedreira' acompanhar esportes. Não tinha essa moleza de canal a cabo, internet, pay-per-view... (risos)

Mas eu não diria que isso influenciou a minha escolha profissional. Tanto que meus irmãos foram para outras áreas. Eu mesmo, quando entrei no jornalismo, não sabia se seguiria política, rock’n’roll ou esportes. Acabei ficando com a "boleiragem" pela ação do destino - sempre ela, por mais que a gente pense que controle a vida... Foi o melhor caminho, sem dúvida. Sou muito feliz com o que faço.

Você já participou das coberturas de diversos eventos esportivos, inclusive internacionais - e esteve em mais de 70 países planeta afora. Qual você considera ser o momento mais marcante de sua carreira?

Vários... Muitíssimos mesmo. Esta profissão é muito farta em vivências, encontros, viagens... Mas, para não ficar em cima do muro, eu destacaria a Copa do Mundo de 2002 (ver o Brasil ser campeão ao vivo não tem preço. É história para contar para os netos e bisnetos) e o Rally Paris Dakar/2000, quando eu, o Clayton Conservani e o repórter cinematográfico Renato Diehl cruzamos a África, desde o Senegal até o Egito, encerrando em frente à Grande Pirâmide. Foi uma experiência sofrida para "caramba", mas marcante. Inesquecível.

À época de seu lançamento em 2003, o Expresso da Bola trouxe uma inovação na cobertura jornalística do futebol europeu. De repente, um mundo novo, até então distante, passou a povoar a grade de programação do canal SporTV. Como surgiu a ideia, e a parceria com a Globosat?

Realmente foi algo novo. Talvez eu tenha percebido antes das outras pessoas que as novas tecnologias permitiam esse tipo de jornalismo por custos razoáveis. Antes ninguém cobria Europa porque era caríssimo, embora nove entre dez estrelas brasileiras estivessem jogando por lá. Mas com as câmeras portáteis, a tecnologia digital, a edição não-linear, as gerações por internet... Tudo isso criou um novo cenário. E eu tive essa ideia. Na verdade, fui morar na França por opção, pedindo demissão após 14 anos de TV Globo. Lá em Paris, comecei a pensar o que eu poderia fazer na Europa para o mercado brasileiro. Assim surgiu a ideia e, consequentemente, a oferta para o SporTV.

Um dos mais relevantes eventos esportivos dos próximos anos, a Copa do Mundo Fifa, em 2014, será sediada no país. O que você pensa a respeito? Vê como oportunidade de desenvolvimento, ou chance de mascarar as deficiências?

Acho uma oportunidade incrível para o Brasil. A Copa é uma grande conquista para o país e para o esporte brasileiro. Acho que temos que estar vigilantes, claro, já que são gastos bilionários, mas realmente me faz muito mal ver e ler todos os dias o pessimismo, a baixa auto-estima e um certo instinto de auto-destruição que infelizmente se agarram à nossa sociedade. Sempre achamos que tudo feito fora é melhor, tudo que é brasileiro não presta, não vai dar certo, só pode ter "mutreta"... Precisamos mudar isso. 

Precisamos ser mais positivos, pensar grande - claro, dentro do que a realidade nos permite, mas acreditar que as coisas podem dar certo e que vivemos um momento muito especial. Eu, que viajo pelo mundo, vejo que em todos os países as pessoas enxergam o Brasil neste momento com um otimismo, com uma admiração que nós mesmos, estupidamente, tentamos destruir. Por puro complexo de vira-latas. Aliás, citando Nélson (Rodrigues), ele dizia que o "brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe no espelho". Infelizmente, ainda é verdade.

Campeã do Mundo, em 2010, e das Eurocopas, em 2008 e 2012, a seleção espanhola manteve-se na liderança do ranking da Fifa. Para você, o que faz deste um conjunto vencedor? É o favorito ao título em 2014?

Sem dúvida, o grande favorito. O melhor time do mundo. E isso acontece por uma série de fatores: sorte, geração, poder (e boa gestão) dos dois grandes clubes, paixão da torcida... Mas especialmente pelo trabalho de base do Barcelona. É uma fonte de talentos incrível. E que foi além: criou um estilo de jogo, uma forma própria, linda e eficiente de jogar. A base do Barcelona fez o mundo acreditar novamente que é possível jogar bonito e vencer. Jogar com craques, com jogadores leves e talentosos, e derrubar esquemas fechados, cheios de volantes e gigantes.

Fico imaginando... Se o Messi fosse catalão, então... Aí a Espanha teria tudo para ganhar os próximos três mundiais. Ah, mas que fique claro: favoritismo é uma coisa, ganhar é outra. Por isso o futebol é o melhor esporte do mundo. Porque, de repente, a Grécia pode ser campeã da Europa.  

18ª colocada no ranking da Fifa, a seleção brasileira ocupa a pior posição em sua história. Com Scolari de volta ao comando, a tão desejada renovação dá lugar a atletas consagrados, como Júlio César e Ronaldinho. Como você avaliou a primeira convocação do treinador?

Em primeiro lugar gostaria de comentar essa posição no ranking da Fifa. É muito comentada como símbolo de decadência do nosso futebol. Mas a verdade é que o ranking é mal feito. O time que não joga as Eliminatórias está em claríssima desvantagem. Seus resultados têm muito menos valor na pontuação. Isso precisa ser repensado pela Fifa. De todo modo, é óbvio reconhecer que o momento não é bom. Não é animador. Por isso, eu diria que o Brasil, hoje, não está entre os favoritos para a Copa. Pode beliscar, mas meio como surpresa. Se embalar e tal... Futebol realmente tem destas coisas. Magia. Grupo. Confiança. Momento. Isso tudo é decisivo.

Sobre a primeira convocação, achei boa. Nada demais. Acho que na lateral esquerda, claramente, o Marcelo - voltando de contusão - é muito melhor que os outros convocados. E no gol achei estranho. Acho que foi um certo desrespeito à nossa Liga e aos nossos clubes. (Diego) Cavalieri e Cássio ficarem de fora é injusto. Neste momento eu diria que é um absurdo. Já o Ronaldinho tem que ser chamado. Foi o craque do Brasileirão, ao lado do Fred. Comandou o time do Galo, mudou a mentalidade por lá... Todas as bolas passam pelo pé dele. E não é um jogo ou dois. É a temporada completa. Não pode ficar de fora, jogando assim.  

Como você avalia as escolhas de Rússia e Catar como sedes das Copas de 2018 e 2022, respectivamente? Em quê as candidaturas (derrotadas) de países com seleções tradicionais, como Portugal, Espanha e Inglaterra servem de lição?

Acho que é um retrato do novo mundo em que vivemos. O dinheiro está mudando de mãos. E é preciso levar isso ao esporte. A economia manda em todas as áreas, não o contrário. É normal que os europeus estranhem, reclamem, que parte da imprensa de lá proteste... E que isso ecoe aqui. Mas faz parte de um momento histórico. Ninguém quer perder os privilégios e o prestígio, mas a própria lógica do mercado se encarrega disso. Por bem ou por mal. A lição que fica para estes países da Europa, a meu ver, humildemente, é: bem vindos ao século XXI. As coisas mudam. Para bem e para mal.  

Em 2012, chegaram Seedorf, Zé Roberto e Forlán. Em 2013, Pato. Eles se somam a Ronaldinho, Deco, Neymar, Fred, Luís Fabiano e outros. Neste cenário, para você, o Brasil passa a ser visto como mercado atraente para os grandes jogadores ou como opção para atletas em baixa?

É retrato do mesmo cenário descrito na resposta anterior. É um novo mundo. E isso acontece em qualquer atividade econômica. Qualquer grupo empresarial ou bancário está hoje muito atento aos mercados emergentes. E por quê? Porque é o dinheiro novo. São as melhores oportunidades do momento. Há dez anos era uma piada tirar os jogadores dos clubes brasileiros. A cada janela de transferência, todos vinham aqui e levavam até o massagista... Com a crise europeia, com o enfraquecimento dos clubes de lá e, paralelamente, o crescimento da nossa economia e o salto de gestão por que passaram os nossos clubes, o cenário mudou.

O Brasil, hoje, tem muito mais competitividade internacional. E, no caso específico do futebol, os nossos clubes entenderam que é preciso gerar receitas, construir patrimônio, cuidar da base, gerenciar marketing, gastar menos do que arrecada. Ainda há muito a evoluir nesta área, mas sem dúvida houve um salto de dez anos para cá. Se a economia do país seguir ajudando e os nossos dirigentes seguirem no caminho da profissionalização, a tendência é que, cada vez mais, teremos estrelas por aqui. 

Bate-pronto:

• Na seleção: R. Gaúcho ou Kaká?

Os dois. Se estiverem bem fisicamente e jogando o que sabem, fico com ambos. Não pelo nome, mas pelo talento e pela experiência.

• Mata-mata ou pontos corridos?

Pontos corridos, sem dúvida alguma. Mata-mata para as copas, como alternativa, serve. Mas nas ligas o ponto corrido é, disparado, o melhor conceito.

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