08/09/2016


Comandado desde 2011 por irmão do tricampeão olímpico José
Roberto Guimarães, time se transformou em potência mundial

Vinícius Dias

Com um modesto sexto lugar, a seleção masculina de vôlei sentado fez sua estreia paralímpica em Pequim, em 2008. Duas edições depois, o Brasil entrará em quadra na manhã desta sexta-feira, diante do Estados Unidos, como potência mundial. O novo status da modalidade, que chegou ao pódio em todas as competições que disputou desde 2013, tem relação direta com a filosofia implementada por Fernando Guimarães, à frente da seleção desde 2011. "Conseguimos tirar 30 anos (de desvantagem) em cinco", comemora ao Blog Toque Di Letra.


Longe de conceitos mirabolantes, a revolução teve como base a aproximação com o vôlei convencional. "Para o vôlei de alto rendimento, a gente não fez nada demais. Mas, para o que os atletas estavam acostumados, a gente mudou radicalmente", explica Fernando, que tem como referência o irmão José Roberto Guimarães, bicampeão olímpico à frente da seleção feminina, com quem trabalhou anteriormente. "O que eu faço é uma adaptação de tudo o que aprendi nesses anos com ele, e não teria como ser diferente", acrescenta.

Fernando ao lado do irmão José Roberto
(Créditos: Arquivo Pessoal/Fernando Guimarães)

No grupo A, ao lado de Egito, Alemanha e Estados Unidos, o Brasil é tido como forte candidato ao pódio. Embora concorde, o comandante faz questão de adotar o discurso de pés no chão. "Vejo três times para ouro e prata: Brasil, Irã e Bósnia (atual campeã). Porém, se a gente não jogar bem, não ganhará de Alemanha e Egito. Contra os Estados Unidos também é complicado". Além da qualidade da equipe, o fator casa é considerado um possível diferencial. "Para tirar uma medalha da gente, terão de fazer muita força", afirma.

Bastidores da preparação

Mesmo com realidade mais modesta e atletas que conciliam o esporte com outras jornadas, a preparação é elogiada. No ciclo paralímpico, o cronograma incluiu monitoramento da rotina dos atletas por parte de preparador físico e psicóloga e teve apoio decisivo do Clube dos Paraplégicos de São Paulo (CPSP). Seis dos convocados defendem a equipe, comandada por Fernando. Uma vez por semana, outros três atletas que atuam no estado participaram dos treinos. "Eles se prontificaram a ir e o clube abriu as portas. Com isso, conseguimos manter contato", destaca.

Treino da seleção de vôlei sentado
(Créditos: Fernando Maia/MPIX/CPB)

O trabalho rendeu pratas no Mundial, em 2014, e na Copa do Mundo deste ano. Resultados que contribuíram para a assimilação da metodologia do treinador, com direito a repetições de jogadas e treinos táticos e de fundamentos, às vezes em dois períodos. "Os atletas não estavam acostumados a algumas coisas que trouxemos. No início, brincavam comigo pelo fato de eu não dar jogo", lembra. "Eles sentavam lá e jogavam, o que é feito no mundo inteiro. Hoje, eles assistem a vídeos nossos e dos adversários, têm uma série de informações que não tinham", compara.

As regras do vôlei sentado

Com regras adaptadas do vôlei convencional, a versão sentada reúne atletas que apresentam desde leves problemas em articulações a membros amputados. Tamanho é documento. "Quanto maior o atleta, mais fácil fica", resume Fernando Guimarães. Isso deve ao fato de que os ataques devem ser realizados com os glúteos encostados no chão. A modalidade tem rede mais baixa - fixada em 1,15 metro no masculino e 1,05 metro no feminino -, quadra com dimensões reduzidas - 10 x 6 metros - e ainda permite bloqueio no saque.

Treinador mira legado além do esporte
(Créditos: Marcelo Regua/MPIX/CPB)

Neste ano, a seleção brasileira terá um elenco mais alto do que o de Londres. Entre os 12 convocados estão atletas como Anderson Ribas, bicampeão da Superliga; Levi Gomes, duas vezes vice-campeão da competição; e Fred Dória, Rei da Praia em 2000. Os três foram integrados ao esporte paralímpico depois de encerrarem as carreiras profissionais devido às limitações físicas. Prometendo surpresas em quadra, o treinador vê a seleção em evolução. "O pessoal ainda não viu a gente jogar. O time está bem mais redondo, mais coeso".

Legado esportivo e social

Fisioterapeuta e referência em hipoterapia - hipismo aplicado ao tratamento de deficientes -, Fernando espera que, além da conquista esportiva, os Jogos tenham um legado social. "Há 28 anos, ouço que o Brasil é o país do futuro. Mas a gente não está preparado para os deficientes", lamenta o treinador, que teve passagem pelo vôlei europeu como atleta. "A gente tem de se superar todos os dias, não é apenas por ter um problema físico. Queria que ficasse o legado do que esses caras podem fazer". A esperança só acaba quando a última bola tocar o chão adversário.

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