19/05/2017


Em quatro meses, foram contabilizados 17 casos no Brasil; número
corresponde a 85% do total registrado durante a última temporada

Vinícius Dias

De janeiro a abril, o futebol brasileiro registrou, em média, um caso de racismo por semana. Resultado de levantamento do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ao qual o Blog Toque Di Letra teve acesso com exclusividade, os números apontam o recorde de denúncias em um início de temporada desde 2014, ano de criação da entidade. Foram 17 incidentes nos primeiros 120 dias - quatro por meio de redes sociais/TV e 13 em estádios, em sete estados diferentes. A lista de vítimas inclui jogadores, treinadores, funcionários de estádios e torcedores.


"O maior problema é que o Brasil é um país racista, mas não se assume como tal. Atos racistas e atitudes preconceituosas se tornaram tão normais em nosso dia a dia que nem os consideramos mais uma violência", analisa Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório. "Algumas expressões já não são mais ditas graças à luta de centenas de movimentos que combatem a discriminação racial, mas outras expressões resistem disfarçadas de brincadeiras ou apelidos. É preciso dar mais importância ao que dizem as vítimas, e não a quem comete o racismo", emenda.

Entidade luta contra racismo desde 2014
(Créditos: Observatório da Discriminação/Arquivo)

Discurso corroborado pelo historiador Thiago Costa. "Negar a existência da violência, silenciando o problema, também pode ser considerado uma forma de coerção da informação", pontua o coordenador do Museu Brasileiro do Futebol, no Mineirão. "Vivemos em uma sociedade que, de modo geral, cultua a violência em várias formas. O esporte está inserido nela, e não é somente prática esportiva, é prática social, de lazer e de cultura. Assim, a segregação que ocorre na sociedade desde os períodos mais antigos também é refletida no esporte", acrescenta.

Falta de ações é ponto negativo

Em breve, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol fará o lançamento do relatório referente ao último ano. Foram elencados 27 casos, sendo sete ocorridos na internet e 20 em estádios - cinco em São Paulo, estado recordista, e pelo menos um por região do país. "Os números de 2016 são muito parecidos com os de 2014, primeiro ano do relatório, e sinalizam que a diminuição em relação a 2015 (35 casos) foi apenas casual, o que fica evidente com o crescimento absurdo dos números nesses primeiros meses de 2017", revela Marcelo Carvalho.

(Arte: Vinícius Dias/Blog Toque Di Letra)

Para o diretor-executivo, um dos pontos negativos é a falta de ações por parte de clubes e instituições públicas e privadas ligadas ao esporte. "Estão preocupados apenas em apagar os focos de incêndio e esconder o problema ou fingir que ele não existe", aponta. De janeiro a abril deste ano, a entidade também registrou casos de racismo no vôlei e no futebol americano, além de homofobia e xenofobia no futebol. "O Brasil vive um momento perigoso. A violência e o ódio às minorias estão evidentes em todos os lugares, sem constrangimento algum de quem os pratica", lamenta.

Futebol mineiro na 3ª colocação

De 2014 a 2016, Minas Gerais foi o terceiro estado com maior número de denúncias de racismo: seis, ao lado de Paraná e Santa Catarina - superados apenas por São Paulo, com 11 casos, e o líder Rio Grande do Sul, com 17. Um novo incidente ocorreu no estadual deste ano. De acordo com a súmula do jogo entre URT e Caldense, válido pela 1ª rodada, foi registrado "boletim de ocorrência por suposta injúria racial ao treinador da Caldense, Thiago Oliveira". O crime de injúria racial tem punições previstas no Código Penal e no Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD).

Marcelo Carvalho, em evento, com Tinga
(Créditos: Observatório da Discriminação/Arquivo)

Em meio à 15ª Semana Nacional de Museus, o tema estará em pauta no Museu Brasileiro do Futebol, no Mineirão, neste sábado. "Elegemos três grandes silêncios do futebol: machismo, diversidade sexual e racismo", destaca o coordenador Thiago Costa. Marcelo Carvalho será um dos participantes. "O exercício de refletir e debater sobre esses temas ajuda na troca de experiências e aprendizados para pensarmos em uma sociedade que respeite mais as diferenças. Portanto, a ideia central nessa semana é dar voz a esses grupos", completa, na esperança por dias melhores.

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