Campeão brasileiro em 2013, volante percorre caminho de
sucesso, sonha com seleção e se torna exemplo para a base

Vinícius Dias

A cada vez que Lucas Silva tocava na bola durante o treino, Miguel Vieira Borges, de 54 anos, e Leandro Silva Borges, de 24, exibiam a expressão sorridente. Próximos a um dos campos da Toca da Raposa II, pai e irmão do camisa 16, respectivamente, tinham a certeza de que o velho sonho se tornara realidade. "É uma satisfação ver um jogador de 21 anos, vindo de base e já campeão brasileiro. Muitas vezes emociona", destaca Miguel, pai do volante que, na próxima semana, se apresenta ao treinador Alexandre Gallo, da seleção sub-21.


Com 71 partidas e quatro gols anotados com a camisa celeste, Lucas Silva foi um dos principais nomes do elenco tricampeão brasileiro na temporada passada. "Cheguei ao Cruzeiro em 2007 (na equipe pré-infantil) e disputei praticamente todos os torneios de base, inclusive alguns fora do país, nos quais pude me preparar bem para chegar ao profissional em 2012", conta ao Blog Toque Di Letra.

Lucas Silva em ação diante do Palmeiras
(Créditos: Marcello Zambrana/Light Press/Textual)

Lucas destaca que, apesar da distância, o apoio do pai é um dos pontos-chave para o sucesso. "Meu pai foi fundamental, sempre me incentivando, dando bons conselhos". Na última semana, Miguel, que reside em Goiás, aproveitou a folga decorrente do período de entressafra agrícola para vir a Belo Horizonte. "Sou muito apegado à minha família. Com eles por perto, me sinto muito confortável e seguro", argumenta o volante, que é um dos xodós da torcida azul.

Presença da família

Miguel veio acompanhado do filho Leandro, de 24 anos, um dos principais incentivadores de Lucas Silva. "Tudo começou aos seis anos, nos campos de Bom Jesus de Goiás", rememora. Nem mesmo o tempo enfraqueceu a boa relação entre os dois. "Em casa, ele é um irmão como os demais. Nós temos nossas brincadeiras e momentos de descontração, mas prevalece a seriedade dele", pontua. Fora de campo, Leandro engrossa a torcida pelo sucesso do volante.

Irmão Leandro, ao lado do pai, Miguel
(Créditos: Vinícius Dias/Blog Toque Di Letra)

No último domingo, por exemplo, familiares de Lucas Silva foram ao Serra Dourada, em Goiânia, para acompanhar a partida entre Goiás e Cruzeiro, válida pela 17ª rodada do Brasileirão. "Sempre que nós podemos, viemos incentivar. Ele tem se preparado bem. A seleção sub-20 foi uma realidade. Agora é a sub-21", comemora Miguel.

Grupo competitivo

Feliz com a lembrança do técnico Alexandre Gallo, Lucas prefere destacar o bom momento no clube a projetar o futuro na Europa. "Aqui no Cruzeiro, jogo em um grupo competitivo, entramos em todas as competições para brigar pelo título, além do ótimo ambiente de trabalho", pontua, sem, no entanto, esconder o sonho de chegar à seleção principal. "Sei muito bem que para isso tenho que estar bem aqui no Cruzeiro", acrescenta o camisa 16 ao Blog Toque Di Letra.

Lucas: exemplo para a base celeste
(Créditos: Washington Alves/Vipcomm)

Motivo de alegria, a ótima fase do meio-campista é tratada como exemplo para os atletas da base celeste. "O Lucas é bom caráter, bom de escola e bom de bola. É o pacote completo, o que a gente busca para espelhar os meninos", afirma Bruno Vicintin, superintendente das divisões de base do Cruzeiro. "O jogador não precisa apenas ser bom em campo. Ele tem que ter postura", completa.

Taça BH: decisão à mineira

Ricardo Diniz

Neste sábado, às 21h30, na Arena Independência, as equipes juniores de Atlético e América vão disputar o título da 30ª Taça BH de Futebol Júnior. Os jogadores, certamente, querem mostrar um bom futebol. Não só para conquistar o troféu, mas também para, quem sabe, conquistar uma vaga entre os profissionais.


Ambos os times fizeram campanhas praticamente perfeitas no torneio. O América se classificou na primeira fase com uma vitória - 6 a 0, diante do Palmeirense -, um empate, por 1 a 1, contra o Sport, e uma derrota, logo na estreia, frente ao Vasco - 2 a 1. Nas oitavas de final, o Coelho passou pelo Londrina, por 2 a 0. A seguir, eliminou o Vitória, vencendo por 4 a 3. Diante do Goiás, na semifinal, a vitória veio nos pênaltis, por 7 a 6, após empate por 2 a 2.

Coelho busca segundo título da Taça BH
(Créditos: América-MG/Site/Divulgação)

A equipe atleticana, por sua vez, derrotou Brasília (1 a 0) e Democrata de Sete Lagoas (5 a 1) e empatou com o Coritiba (1 a 1) na fase de grupos. Nas oitavas e nas quartas de final, o Galinho bateu Bahia e Internacional, vencendo ambos duelos por 2 a 1. Na semifinal, a vítima foi o Figueirense, que perdeu por 4 a 2.

Galo vai a campo pela sexta conquista
(Créditos: Bruno Cantini/Flickr/Atlético-MG)

O meia Dodô e o atacante Carlos, que já tiveram oportunidades na equipe profissional do Atlético, são dois dos destaques do grupo comandado por Rogério Micale - técnico que tem bom aproveitamento nas competições de base nos últimos anos. O time tem, além deles, o goleiro Uilson, segundo reserva de Victor. Do lado alviverde, os destaques são os atacantes Bruno Sávio e Rubens, que, juntos, fizeram 13 gols no torneio - nove deles de Bruno Sávio.


Reportagem assinada por Breiller Pires lista semelhanças
entre a boa fase do Cruzeiro e o título da seleção alemã

Vinícius Dias

Líder há 12 rodadas, com sete pontos de vantagem sobre o segundo colocado, dono do ataque mais efetivo e da segunda melhor defesa do Campeonato Brasileiro. A fórmula de sucesso do Cruzeiro, que caminha rumo à quarta conquista nacional, é destaque na capa da edição de setembro da Revista Placar, da Editora Abril. A publicação chegará às bancas na sexta-feira, dia 29 de agosto.


A reportagem é assinada pelo repórter belorizontino Breiller Pires. "A ideia, guardadas as devidas proporções, era apresentar as semelhanças entre o trabalho de reestruturação do Cruzeiro, que começa no pós-6 x 1, com o da Alemanha desde a Euro 2000", conta Breiller ao Blog Toque Di Letra. As fotografias foram produzidas por Eugênio Sávio, professor do curso de jornalismo da PUC Minas.

Marcelo, Lucas e Goulart: trio de sucesso
(Créditos: Divulgação/Revista Placar)

O texto percorre os principais fatores que explicam a boa fase vivida pelo clube desde o último ano, entre eles a associação de boas contratações e aproveitamento dos talentos das categorias de base. "Falando com gente do clube, inclusive com o presidente Gilvan (Tavares), descobrimos que o Cruzeiro de fato se inspira no trabalho dos alemães e no do Barcelona de alguns anos atrás", acrescenta Breiller.


Prestes a encerrar sua história no futebol, meia estampa
felicidade no Coritiba e já projeta futuro como treinador

Vinícius Dias

A estátua em frente ao Sukru Saraçoglu, estádio no qual Alex brilhou em Istambul, se agiganta aos olhos dos torcedores do Fenerbahçe, equipe da capital turca. A peça, esculpida em bronze, tem 1,75 metro, bem como o meia brasileiro, mas ostenta a indelével marca de três títulos nacionais em oito anos. Em números, Alex registra 185 gols e 162 assistências em 378 jogos pelo time. "(Olho) para trás e me sinto satisfeito demais com o nível atingido", pontua o craque.

Coritiba: primeira e, também, última casa
(Créditos: Coritiba F.C./Divulgação/Site Oficial)

Os torcedores de Coritiba, Palmeiras e Cruzeiro concordam. E o idolatram. Quando o assunto é seleção, sobram perguntas, faltam respostas. Aos 36 anos, e sem ter disputado uma Copa do Mundo, conquanto fosse um dos meias mais técnicos da época, ele se prepara para deixar os gramados. A quatro meses de encerrar a história no esporte que o alçou à condição de ídolo, Alex esboça o futuro. "Vou parar e me preparar para ser treinador", revela o 10 coxa-branca.

Quase dez mil pessoas o receberam no dia 17 de outubro de 2012, no Couto Pereira. Antes de retornar ao Coritiba, seu primeiro clube profissional, você recusou ofertas de Cruzeiro e Palmeiras, equipes em que é visto como ídolo. Hoje, após dois anos, você acredita ter feito a melhor escolha?

Quando aconteceu a rescisão com o Fenerbahçe, foi uma grande surpresa para mim, que imaginava cumprir bem meu contrato, até maio de 2013, e retornar para Curitiba. Foi uma escolha emocional. Em momento algum, eu parei e fiquei imaginando como seria, o que eu enfrentaria, o que o clube disputaria, como seria minha equipe. Era e continua sendo um sonho infantil: terminar meu ciclo jogando no clube do meu coração.

Colocaram que foi uma escolha familiar. Mentira! Já estava fora da cidade fazia anos, ficar mais um dois anos nada mudaria. Falaram que seria uma escolha política, devido ao (fato de) meu sogro ser conselheiro vitalício do clube e ex-presidente. Outra mentira! Ele não está mais no clube nem deseja voltar. Não me arrependo de nada nessa escolha, até mesmo porque meu sonho infantil está se realizando. E, quando somos crianças, o resultado final é o que menos importa. A alegria está em momentos singelos, e isso tenho tido desde 17 de outubro de 2012.

A sua reestreia nos gramados brasileiros aconteceu em janeiro de 2013, cerca de dez anos depois de ter deixado o Cruzeiro rumo ao Fenerbahçe, da Turquia. Pode-se afirmar que, nesse retorno, você encontrou um novo cenário no futebol nacional? Melhor ou pior do que o da década passada?

Encontrei (um cenário) igual. E isso me assustou. Passaram-se dez anos e parecia que tinham passado dez dias. Mas, tecnicamente falando, a saída cada vez cedo dos jovens do nosso país fez com que diminuísse a qualidade.

Ao fim do Brasileirão de 2014, você terá 37 anos, e encerrará sua história como jogador. Durante 20 anos de carreira, você atuou em seis clubes, de três países. A sensação, hoje, é de dever cumprido? Existe a chance de, logo após a aposentadoria, vermos o Alex como treinador ou comentarista?

Na verdade, atuei em quatro clubes. No Flamengo, foi uma passagem pequena, de dois meses e apenas 12 jogos. Foi ruim para mim e também para o clube. A única situação boa desses dois meses de Flamengo foi conhecer de perto a força da marca e da torcida. Na Itália, fui envolvido em uma situação política do clube e estive (no Parma) por somente três meses.

Nos outros quatro clubes (Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe), não. Estive, envolvi-me com os clubes, com suas histórias, atingi bons números, identifiquei-me com o clube e o torcedor, fui campeão. Isso tudo faz com que eu olhe para trás e me sinta satisfeito demais com o nível atingido. Vou parar e me preparar para ser treinador. Ter sido jogador de futebol de bom nível não me credencia a nada. Tenho que começar do zero, independente do que opte por fazer.

Para 2013, o presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho, enfrentou a resistência da torcida e anunciou Marcelo Oliveira como técnico do clube. A rejeição cresceu, a seguir, quando o camisa 10 Montillo foi negociado. Sem fugir do orçamento, a Raposa fez várias apostas e terminou o ano com o tri brasileiro. O Cruzeiro é um exemplo a ser seguido? Ou um caso de rara felicidade?

Acredito que a rejeição ao Marcelo tenha sido muito mais pelo passado dele, como jogador do Atlético (nas décadas de 1970 e 1980), do que propriamente pelo trabalho dele como treinador. Ele vinha de boas campanhas com o Coritiba (no clube alviverde, foi vice-campeão da Copa do Brasil em 2011 e 2012), mas seu passado atleticano trazia essa rejeição inicial.

O Cruzeiro sempre foi exemplo de administração. Desde que comecei a entender as coisas do futebol, o clube é colocado como referência. Esse time atual, que foi campeão (brasileiro) no ano passado e é o favorito nesse ano, é fruto dessa organização de sempre, mais bons jovens contratados, que vivem ótimos momentos. Sendo assim, a pitada de sorte necessária acompanha.

Desde o ano passado, o Bom Senso FC tem sido um importante agente no contexto da rediscussão do futebol no país. No entanto, você e o Rogério Ceni, dois dos principais símbolos do movimento, vão deixar o futebol ao final desta temporada. Paulo André, outro expoente, está na China. Como essa nova configuração impactará a pauta do grupo?

O grupo veio para ficar. Levantaremos a bola para discutir vários assuntos. Somos e estamos totalmente envolvidos com o produto futebol. A necessidade de o jogador de futebol se juntar e falar chegou até atrasada. Mas o mais importante é que chegou. Sempre discutimos isso: como ficará quando não formos mais jogadores de futebol? Queremos e conseguimos montar uma engrenagem para a coisa correr por conta, e novos jogadores surgirão e se colocarão também. Acredito que o Bom Senso FC tenha ocupado um bom espaço.

Foram cerca de sete anos de preparativos. No gramado, a seleção brasileira decepcionou - culminando na goleada, por 7 a 1, para a Alemanha. Mas, fora dele, a avaliação é de que o país surpreendeu positivamente. Você concorda? Em sua visão, qual foi o real legado da Copa de 2014?

Em campo, não fomos bem. Nosso time não se achou e todos vimos como acabou. Muito se fala da Copa em cima dos jogos assistidos por nós e jogado pelos grandes jogadores que aqui estiveram. Não vejo surpresa nenhuma nisso. Os jogadores que vieram mostraram suas qualidades e nos brindaram com grandes jogos. Os turistas que vieram ao Brasil foram super bem recepcionados pelo nosso posso, que fez dos locais destinados aos eventos da Copa uma grande festa.

Não vejo surpresa nisso. Nosso povo é, e sempre foi, super receptivo e festeiro. E, dentro de campo, os jogadores mostraram suas condições. Vias de acesso, aeroportos e malha aérea seguem em obras e discussão. Não sobrou nada de legado nesse sentido. O legado que ficou foram os estádios, que ficaram lindos, e a discussão em cima do que podemos e como faremos para a melhora do nosso futebol.

Zico comandou o meio-campo brasileiro na Copa de 1986. Em 1994, a bola da vez era Raí, e Rivaldo foi o camisa 10 em 1998 e 2002. No Brasileirão, hoje, talvez você seja, na essência, o único armador. A queda do futebol brasileiro passa também por um novo conceito de camisa 10, espaço que vem sendo ocupado pelos volantes-meias e meias-atacantes?

Em minha opinião, Zico, Raí e Rivaldo nunca foram meias-armadores, sempre foram meias-atacantes ou meias pontas de lança, como chamavam. Não me sinto meia-armador, nunca me senti. Acredito que o Brasil está deixando de produzir três peças importantes: camisas 5 com leitura (de jogo), 10 e 9. E, nessa leitura tática, tentamos fazer algo como fazem os europeus, sem jogadores com as características para fazê-lo.

Às vezes, vários treinadores jogam atletas para a 'beirada' do campo, e esses não têm a mínima ideia do que fazer por ali. Temos que respeitar nossa escola e copiar o que eles têm de bom. Compactação, proximidade, as linhas, a leitura e o posicionamento. Precisamos usar as características da melhor maneira. Agregar situações é sempre bom, mas forçar algo que os jogadores não sabem fazer, na minha opinião, não serve.

Nesses últimos anos, as falhas no processo de formação de atletas têm sido apontadas como uma das explicações para o insucesso do futebol nacional. Como você vê o trabalho realizado nas categorias de base do país, sobretudo, a partir das relações da tríade atletas, empresários e clubes?

Essa é uma ótima discussão. Acredito que (o processo) tenha várias falhas, mas apontá-las seria generalizar, e não gosto de fazer isso. Mas é óbvio e muito claro que temos que discutir muito a nossa legislação. A 'Lei Pelé' ofereceu liberdade para alguns, mas deu um sistema de amarras para os clubes e, até mesmo, para os meninos. Mas, falando em base, eu acredito que temos que respeitar a escola de cada clube.

A base do Cruzeiro respeitar o que cruzeirense gosta, para que, quando o menino chegar à equipe profissional, ele saiba o que representa e como ele deve usar e se comportar com aquela camisa. O mesmo para Palmeiras, Coritiba, Flamengo e outros. Porque cada um tem sua história e suas características, que têm que ser preservadas, respeitadas e, principalmente, ter continuidade. Sendo assim, a base dará bons frutos, como sempre foi em qualquer clube.