22/06/2016


Ídolo cruzeirense vê cenário nacional em atraso, critica CBF e
revela expectativa em Tite: 'Que vá além do cargo de técnico'

Vinícius Dias

422 gols e 356 assistências em 1035 partidas. A contagem, interrompida em dezembro de 2014, poderia ter ido além. Alex recebeu um convite do Cruzeiro para disputar a Copa Libertadores ano passado, por exemplo. A decisão, contudo, já havia sido tomada. "Viver futebol é desgastante e já não tinha mais paciência para isso", revela. Seis meses após pendurar as chuteiras, o curitibano estreou como comentarista na ESPN Brasil. "Estou apenas falando de futebol e não tenho a mínima vontade de fazer alguém mudar de ideia ou concordar comigo", garante.

Alex: dos gramados para a tela da TV
(Créditos: Gualter Naves/Light Press)

Com a classe habitual, Alex aborda diversos assuntos nesta entrevista ao Blog Toque Di Letra. Da chegada de Tite à seleção à expectativa quanto aos rumos da Primeira Liga, passando pelas Olimpíadas de 2000. Quando perguntado sobre a preparação do técnico brasileiro, é convicto. "Criamos uma linha de treinadores que estudavam pouco e motivavam muito". Hoje espectador, revela um sonho. "Tenho apenas uma vontade enorme de ver nosso futebol melhor organizado, melhor jogado e principalmente melhor dividido em todos os gêneros".

Você integra, desde o ano passado, a equipe de comentaristas dos canais ESPN. Como tem avaliado a experiência? Qual é a principal dificuldade no momento de analisar atuações de atletas que eram, até outro dia, seus companheiros ou adversários?

Não tenho problema nenhum. A experiência tem sido muito boa. Ver futebol sem o envolvimento que tinha está sendo ótimo. Meu compromisso é muito simples: analisar aquilo que estou vendo e sinto a necessidade de falar. Falar a respeito de alguém que foi ou é meu amigo, ex-companheiro, ex-adversário, para mim, é igual a falar de um desconhecido. Estou apenas falando de futebol e não tenho a mínima vontade de fazer alguém mudar de ideia ou concordar comigo.

Futebol cada um enxerga como quer. Envolve sua educação, seus princípios e, muitas vezes, sua paixão. Depois de tantos anos no futebol, não tenho mais a paixão de arquibancada. Tenho apenas uma vontade enorme de ver nosso futebol melhor organizado, melhor jogado e principalmente melhor dividido em todos os gêneros.

Ao longo da história, profissionais como Dida, Rivaldo, Zico e, até mesmo, Pelé retomaram as carreiras após períodos de inatividade. Você chegou a receber um convite do Cruzeiro, por exemplo, para disputar a Libertadores do ano passado. Desde a despedida diante do Bahia, em 2014, você cogitou rever a aposentadoria em algum momento? Por quê?

Quando resolvi parar, eu pensei muito antes de anunciar. Ponderei várias situações. Uma delas, e a principal, era saber o que fazer pós-carreira. Viver futebol é desgastante e já não tinha mais paciência para isso. Fisicamente estava desgastado, mas mentalmente estava mais. Queria viver o dia a dia da minha família, fazer as coisas junto dos meus filhos. E isso tem sido fantástico e enriquecedor para mim. Outra coisa que queria muito era ver futebol sem a responsabilidade de três pontos, sem a cobrança de me preparar para jogar.

Queria ver de longe e começar a juntar o que penso do esporte sem esse envolvimento que muitas vezes nos cega. Hoje, converso com dirigentes, treinadores, jogadores, jornalistas, torcedores, e vou fazendo um apanhado junto com aquilo que vivi sendo jogador de futebol. Confesso que está sendo ótimo. Estou conseguindo ter uma visão ótima e sigo aprendendo. Então, em momento algum consigo me ver em campo. Minha exceção é apenas em alguns lances de falta em que fico imaginando o que aquele batedor irá fazer. Se estou com meu filho, falo para ele o que eu tentaria fazer naquele momento, mas isso dura segundos e acaba.

O chileno Pellegrini foi bem no Manchester City. Argentinos, Diego Simeone e Pochettino comandam Atlético de Madrid e Tottenham, respectivamente. Sampaoli acertou há pouco com o Sevilla. Não há treinadores brasileiros nas principais ligas da Europa, enquanto os estrangeiros têm ganhado espaço por aqui. O treinador brasileiro, hoje, é mal preparado?

É! Primeiro, porque criamos uma linha de treinadores que estudavam pouco e motivavam muito. O Brasil é o único país do mundo em que o treinador faz vídeo com as famílias, namorada, esposa, amigos para criar um ambiente que o levará à vitória. Sempre ouvimos dirigentes, jornalistas e torcedores dizendo que precisamos de um treinador que dê um choque nessa equipe. O treinador que falava baixo e era educado era visto com uma pessoa mole, de caráter fraco para comandar um grupo de jogadores de futebol. Hoje se encaminha para uma mudança.

Até mesmo porque a sociedade mudou, o futebol também mudou muito e, com isso, nossos treinadores também mudarão. Frases feitas e repetidas durante décadas valem pouco hoje. Conhecimentos adquiridos na prática e também na teoria serão cada vez mais valorizados. Situações que antes não olhávamos, como gerenciamento de pessoas, parte técnica, tática e conhecimento de relações humanas terão que andar cada vez mais juntas para o treinador de futebol. Tornou-se um cargo muito grande, além do que imaginávamos há 20 anos.

À época do acordo entre Cruzeiro e Paulo Bento, você disse estar curioso com a chegada do português ao Brasil, especialmente pela forma diferente como os europeus veem o futebol. Passado pouco mais de um mês, qual é sua impressão inicial sobre o trabalho e a postura do treinador?

O início é péssimo e a bola está nas mãos da diretoria. Dar continuidade e esperar os resultados aparecerem ou fazer o que nossa cultura manda. É muito difícil para o Paulo pegar o trabalho pela metade. Na Europa, está acostumado a conhecer a mentalidade do clube, a expectativa dos torcedores, seu grupo de jogadores, o perfil desses jogadores, a logística de treinamentos e viagens. Ele pegou tudo isso no meio do caminho e ainda deve estar vivendo as diferenças de dia a dia, sobre o qual não podemos opinar, porque não sabemos como estão as coisas dentro da Toca da Raposa.

Em dezembro último, você foi um dos signatários de manifesto por renúncia de Marco Polo Del Nero e mudanças na estrutura da CBF. Tite, que também assinou aquele documento, assumirá o comando da seleção, ainda na era Del Nero. Em sua visão, até que ponto a chegada do treinador, multicampeão pelo Corinthians, é um indício de mudança?

Não vejo indício nenhum. Tite é o nome certo depois de dois anos de atraso. Desde Luxemburgo, em 1998, não temos um treinador na seleção com tanto apelo popular. Mas só aconteceu isso porque tivemos uma participação ruim na Copa América. Em momento algum a CBF mostra intenção de modificar algo. Mais uma vez temos a chamada de responsabilidade de podermos alterar nosso rumo. Espero que o Tite vá além do cargo de técnico. Que ele possa se posicionar como alguém que abra os caminhos para mudarmos para um caminho melhor para o nosso futebol.

A seleção olímpica de 2000 tinha nomes como o zagueiro Lúcio, o lateral Fábio Aurélio e, no meio-campo, você e Ronaldinho Gaúcho. Luxemburgo optou por abrir mão dos três jogadores acima dos 23 anos. Essa decisão pesou na campanha decepcionante? Quanto ao Rio 2016, vê Neymar, aos 24 anos, pronto para ser a referência na busca pelo sonhado ouro?

O que mais pesou em 2000 foi a falta de preparação para os jogos. Fizemos um pré-olímpico fantástico em janeiro. Os Jogos Olímpicos começaram em setembro. De janeiro a setembro, nosso grupo se encontrou apenas uma vez. Fizemos dois jogos contra o Chile, um lá no Chile e outro em Florianópolis. A CBF não deu a importância devida à competição e, quando lá chegamos, o Luxemburgo estava sendo envolvido em várias acusações. Se lembrarmos, ele acabou em uma CPI. Fizemos uma competição muito abaixo do esperado.

Para o Rio 2016, não tenho dúvidas de que o Neymar está preparado para ser nosso referencial técnico. Está jogando em um grande nível e acredito que com um desejo enorme de poder mostrar junto dos seus companheiros o melhor futebol possível. Acredito que temos totais condições de quebrarmos esse tabu e alcançarmos o tão desejado ouro olímpico.

A Primeira Liga teve início neste ano como um torneio associado à proposta de ter os clubes como protagonistas do debate. Qual é a sua perspectiva em relação a esse movimento e à ideia de ser criar uma liga nacional de clubes?

Minha perspectiva é que tenha a segunda edição, melhor organizada e se aprimorando a cada ano. A primeira coisa que queria ver melhorada é a divisão de cotas de TV em igualdade. Independente de história, de número de títulos, números de torcedores e outras situações. Igual para todas as equipes. Uma depende da outra para o sucesso da competição e, aí, se coloca prêmio pela colocação. Por meritocracia, quem chegar à frente leva as vantagens por ter alcançado o objetivo final.

Em meio à eclosão de debates sobre o futebol nacional pós-7 a 1, costuma passar batido o aspecto formação. Como você vê, hoje, a relação dos clubes brasileiros com os atletas na base em relação à técnica, tática e à preparação do cidadão?

A formação é a parte mais importante. Os torcedores têm que começar a olhar para a categoria de 14 anos e saber quais valores estão sendo passados ali. Isso é de fundamental importância para aqueles que atingirão a equipe principal e também para aqueles que não chegarem, a maioria. É importante, também, porque se gasta muito dinheiro nesse período e poucos contabilizam depois. Outros fatores são: quem são esses treinadores-educadores? Como ensinam? O que ensinam? Que objetivos os clubes têm? Título ou trabalho de formação? São questões relevantes que os torcedores podem e devem fiscalizar. O treinador do sub-15 tem que ser valorizado e fiscalizado tanto quanto o do time principal.

Temos que, aos poucos, eliminar a promiscuidade existente na base do futebol brasileiro. Isso passa pelo governo brasileiro, com uma alteração na Lei Pelé, deixando essa relação mais equilibrada entre clube e atleta para que a figura do empresário diminua cada vez mais. É um caminho longo, mas tem que ser iniciado em algum momento. E esse momento era julho de 2014, mas será agora. Estamos atrasados mais uma vez, mas temos que começar por algum lugar. Espero que o Edu Gaspar e o Tite possam, de alguma forma, provocar esse início de mudança de pensamento e que comecemos a implantar uma filosofia em nosso futebol.

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