18/06/2015


Reprovado em testes em São Paulo e Rio, jovem baiano chegou
ao clube em 2010 e faz história sob o comando do 'paizão' Levir

Vinícius Dias

Em meados de 2010, a vida sorriu para o guri nascido em Jeremoabo, no interior da Bahia. Jemerson chegou ao Atlético com a missão de escrever uma nova história após ser reprovado em testes realizados nas bases de Santos, Palmeiras e Vasco. "Não fiquei nesses outros clubes, mas nunca baixei a cabeça", afirma. Em menos de um ano entre os titulares do time mineiro, o zagueiro foi comparado a Beckenbauer e colocou três títulos no currículo: Recopa Sul-Americana e Copa do Brasil, em 2014; e Mineiro, em 2015. "Devo muito ao Galo e à torcida", pontua.

Zagueiro revela gratidão ao alvinegro
(Créditos: Bruno Cantini/Flickr/Atlético-MG)

Das cinco partidas disputadas com Cuca à titularidade sob o comando de Levir Culpi, desbancando o capitão Réver, muita coisa mudou na vida do baiano. À exceção da simplicidade. "O sucesso é uma coisa que não me deslumbra, só me dá mais motivação para continuar melhorando", diz. O bom momento permite ao defensor, sem se esquecer da equipe que o acolheu, vislumbrar voos mais altos. "Jogar na Europa é um sonho, mas não tenho pressa". Quem o viu sair de Jeremoabo, há quatro anos, para tentar a sorte em Sergipe, sabe disso.

Aos 17 anos, você deixou o interior baiano para tentar a sorte no Confiança, em Sergipe. Qual foi a receita para manter vivo o sonho de se tornar um jogador profissional, mesmo diante desse começo, digamos, tardio?

Eu sempre joguei bola e, apesar de ter ido ao Confiança já com 17 anos, estava acostumado com os campeonatos e sempre fui meio fominha. Nunca desisti do meu sonho de ser profissional, mesmo nos momentos difíceis. Quando decidi que queria seguir esse caminho, sabia que só tinha uma escolha: me dedicar bastante e ter persistência, pois não seria fácil. Então, tudo foi seguindo seu caminho natural. Fui ao Confiança, depois fiz testes em outros clubes, até chegar ao Galo.

Antes de chegar ao Atlético, em meados de 2010, você passou por testes nas divisões de base de Santos, Palmeiras e Vasco, mas não foi aprovado. De algum modo, as dificuldades enfrentadas logo no início da carreira serviram de lição para você? Há um sentimento de gratidão ao Atlético?

Toda dificuldade que a gente passa na vida serve de lição. No futebol, como normalmente saímos de casa muito novos, precisamos aprender a superar esses obstáculos que a vida nos impõe desde muito cedo. Não fiquei nesses outros clubes, mas nunca baixei a cabeça. Depois de cada dificuldade, eu me levantei e comecei de novo, até que o Atlético me abriu as portas e fiquei por aqui de vez. Por isso, o sentimento de gratidão pelo clube é enorme. Foi quem me deu a oportunidade de fazer o que mais gosto no mundo e de realizar esse sonho. Devo muito ao Galo e à torcida, que me acolheu tão bem desde o início.

Em 2013, você disputou apenas cinco jogos. No ano passado, com Levir, teve a tão esperada sequência, ganhou a posição do capitão Réver e um novo vínculo, com multa estimada em R$ 100 milhões. Como você tem lidado com o sucesso?

Acho que é fruto do meu trabalho e dos meus companheiros. Graças a Deus, temos conseguido chegar a decisões, brigar por títulos e isso foi muito importante para que eu me firmasse. Tive minha primeira grande oportunidade logo em uma final de Recopa e ali mostrei que poderia estar no time. Com a contusão do Réver, que infelizmente teve de ficar um longo tempo fora, me firmei e tive sequência. Mas, com tantos jogadores de qualidade no elenco, preciso provar a cada treino e a cada jogo que mereço estar no time. O sucesso é uma coisa que não me deslumbra, só me dá mais motivação para continuar melhorando.

Em seus primeiros passos na equipe profissional do Atlético, você teve a oportunidade de conviver com Ronaldinho Gaúcho, um dos principais nomes da história do futebol. Como foi, no dia a dia, o contato com ele?

O Ronaldinho é um cara muito bacana e muito humilde. Um cara que conquistou tudo na vida, foi melhor do mundo, ganhou Copa do Mundo, Liga dos Campeões, Libertadores, nunca deixou de tratar todos da melhor maneira possível. Foi um amigo muito importante para todos nós, que tivemos a chance de conviver com ele, e também para o clube. Ele mudou a história do Galo.

Pelas boas atuações com a camisa atleticana você tem, certamente, atraído a atenção de clubes estrangeiros. Uma transferência para a Europa, por exemplo, está em seus planos mais imediatos? Ou você pensa em, primeiro, se consolidar na história do Atlético?

Eu penso sempre primeiro no Atlético, pela gratidão e pelo desejo de fazer história aqui. Mas eu não posso prever como serão as coisas amanhã; se vai surgir uma proposta tentadora para o Atlético e para mim, que fará as coisas tomarem outro rumo. Sigo fazendo o meu trabalho da melhor forma possível, tentando ajudar o time a conquistar as vitórias e a brigar por títulos nas competições que está disputando. Nunca escondi que jogar na Europa é um sonho para mim, mas não tenho pressa.

Em abril, você foi vítima de um ato racista por meio de uma rede social. Recentemente, jogadores como Tinga, Aranha e Dani Alves passaram por situação semelhante. Na sua ótica, existe receita para pôr fim ao racismo e ao preconceito no futebol? Por que ainda não foi colocada em prática?

Acho que falta educação a algumas pessoas. Muitas vezes o torcedor fica chateado com algo, mistura as coisas e desconta sua frustração de uma forma errada. Talvez o garoto que me ofendeu nem seja racista, mas não pensou na hora de falar. Acompanhei de perto também o caso do Tinga, pois era jogador do nosso rival e a mídia aqui de Minas deu repercussão, e também do Arouca, pois temos a mesma assessoria, e dá para ver que algumas pessoas pensam que, dentro do futebol, vale tudo para desestabilizar um rival, inclusive ofender sua dignidade e suas origens.

E isso é culpa não só da falta de orientação, mas também de quem espalha o pensamento de que jogador de futebol, por ganhar bem, tem de aguentar todo tipo de provocação. Se isso é considerado crime, por que devemos estar sujeitos e os outros não? No mais, acho que, quanto mais moral dermos a esses caras, mais casos vão acontecer. São pessoas com necessidade de aparecer, sabem que não vão ser punidas e que ninguém toma providência para acabar com isso.

A sinceridade é uma das marcas do técnico Levir Culpi. Desde que retornou ao Atlético, aboliu a concentração e não tem se limitado a discutir o que ocorre dentro de campo. Como é a relação do grupo de jogadores com ele? E, em especial, como vocês percebem esse comportamento dele?

O Levir é um paizão para todos nós. E, como todo pai, existem horas em que precisa dar uma bronca e ser franco, pois é para o bem de todos nós. Existe muita vaidade no futebol, mas nosso grupo sabe que, pelo bem do time todo, precisamos absorver o que ele fala e aprender, pois ele não caiu ali de paraquedas. É um treinador vencedor e sabe o que está dizendo. E, por mais duro que seja, é preciso saber que faz isso querendo que a gente evolua. Ninguém tem de ficar de biquinho ou de cara feia. Ele é o nosso comandante e confiamos nele.

Você, aos 22 anos, é um dos atletas mais jovens do atual elenco - entre os titulares, perde apenas para Douglas Santos e Carlos. Ao mesmo tempo, é o segundo jogador que mais defendeu a equipe nesta temporada - abaixo do camisa 1 Victor. Isso representa uma responsabilidade extra?

É uma grande responsabilidade, sim. Vestir a camisa do Atlético, por si só, já tem um peso muito grande, pois sabemos que representamos um clube tradicional, vencedor e uma torcida enorme, que vai estar até a morte ao nosso lado. Estar no time e contar com a confiança do treinador e dos meus companheiros é um componente a mais e trabalho sério todo dia para dar conta do recado.

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