15/08/2016


Vitória da seleção diante de 52,6 mil torcedores no Gigante da
Pampulha, na sexta-feira, contrasta com a realidade dos clubes

Vinícius Dias

Com o apoio de 52.660 vozes, que registraram na sexta-feira passada o recorde de público da temporada no Mineirão, o Brasil superou a Austrália por 7 a 6, nos pênaltis, alcançando a fase semifinal do torneio de futebol feminino dos Jogos Olímpicos. Uma noite de festa justa, mas distante da realidade da modalidade no estado. No dia a dia, à margem do Gigante da Pampulha, as atletas convivem com apoio escasso, públicos ínfimos e, em diversos casos, precisam utilizar os próprios recursos para manter vivo o sonho de jogar futebol.


"Infelizmente, a rotina não é igual à do futebol masculino profissional. Não vivemos somente de futebol. Temos que conciliar com estudos, trabalho", pontua Aline Guedes, do América, ao Blog Toque Di Letra. Graduada em Educação Física, a camisa 10 divide-se entre a o dia a dia do Coelho, que assinou sua carteira profissional há seis meses, e a função de assistente técnica das categorias de base no Olympico Club. "Quando preciso viajar, meu trabalho me libera e me apoia", revela.

Aline Guedes em treino do Coelho
(Créditos: América FC/Divulgação)

Único clube mineiro a manter um time profissional feminino atualmente, o América reúne um mosaico em seu elenco: entre as 26 jogadoras, há de empresária a cabeleireira. "Nos desdobramos para fazer tudo com amor e dedicação", afirma Guedes, como é conhecida a meio-campista. A força de vontade é um artifício para encarar as dificuldades que pontuam a rotina. "Não posso dizer que seja totalmente preconceito da sociedade, mas isso ainda existe, infelizmente", diz a atleta, de 26 anos.

Amadorismo e pouco apoio

A falta de apoio do mercado, somada ao amadorismo da maior parte dos clubes, afeta também o Campeonato Mineiro. O principal torneio feminino em nível estadual, cujo campeão ganha vaga na Copa do Brasil, terá início em setembro. Para essa edição, não foi fechado um acordo de patrocínio. "Diferentemente do ano passado (houve aporte de empresa do ramo de laticínios), nós vamos arcar com arbitragens e quadro móvel", confirma o diretor de competições da FMF, Paulo Bracks.

Conselho técnico do torneio feminino
(Créditos: Site Oficial da FMF/Divulgação)

A competição terá apenas seis equipes - duas a menos do que no último ano - e calendário com 16 jogos. Um sétimo clube chegou a se inscrever, desistindo no conselho técnico. Outro manifestou interesse após o prazo legal. Dos 12 da elite masculina, somente o América disputará. "Tentamos fomentar, mas há dificuldade e, às vezes, não é nem financeira. É cultural, mesmo", analisa Bracks, lamentando o fato de os jogos, apesar de terem entrada franca, registrarem média de público baixa.

No interior de Minas Gerais

No interior, a situação é ainda mais difícil. Dos seis inscritos no estadual, somente o Ipatinga, atual campeão, não pertence ao eixo capital-Região Metropolitana. Em Itabirito, por exemplo, uma equipe de futsal chegou a almejar a transição para o campo nos últimos anos. A falta de apoio, no entanto, resultou no fim das atividades. "Não tínhamos condições de arcar com as despesas de campeonatos, uniformes e materiais para os treinos. Tirávamos do bolso o dinheiro da gasolina (da técnica)", rememora Luana Chaves, de 22 anos, que atuava como goleira.

Duelo entre Prointer e Ipatinga, em BH
(Créditos: Cinthya Santos/FMF/Divulgação)

Daquele elenco, seis atletas agora atuam em times femininos de futebol, futsal ou society no estado, enquanto a ex-treinadora integra a comissão técnica do América. Para as demais, como Luana, que hoje trabalha como monitora de estacionamento em Itabirito, ficaram a saudade e o plano de futuramente retomar as atividades. "Nosso maior sonho é ver o nome de nossa cidade como referência. Temos excelentes atletas e meninas novas chegando", garante. O que falta, então? Apoio.

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