18/02/2017

Matar clássicos não garante mais vidas

Vinícius Dias

Levantar logo cedo, almoçar e sair de casa na companhia de familiares ou amigos - independentemente das cores e símbolos que representem suas paixões - com destino ao estádio. Durante os 90 minutos, oscilar de forma imprevisível entre se fazer ouvir nos momentos triunfantes e, em meio ao silêncio retumbante das cadeiras vizinhas, ouvir o êxtase da outra metade nos momentos de derrota. O rito, antes comum nos domingos de clássico, tem pouco a pouco ficado no passado. É o placar final da busca pelo mais cômodo, não pela solução.


Que fique claro: cenas de violência como as de domingo passado, antes de Botafogo x Flamengo, são inconcebíveis. Mas a caneta que tem o poder de afastar do estádio até o torcedor de bem do time visitante não impede que o malfeitor aja. Há torcida única em São Paulo e, a quase 50 quilômetros do palco da partida, corintianos e são-paulinos se confrontaram em julho. Em Minas Gerais, o clássico com duas torcidas, no mês passado, terminou sem danos. Em 2015 e 2016, a regra foi de 10% dos ingressos para visitantes e houve conflitos inclusive em Contagem e Betim.

Pré-jogo, clássico teve cenas violentas
(Créditos: Gilvan de Souza/Flamengo.com.br)

Muito além de uma releitura do caso em que a pessoa traída se desfaz do sofá no qual ocorreu o ato, a alternativa atende à necessidade de apontar culpados: neste caso, os visitantes. Por que não reforçar o monitoramento das principais vias de acesso? Por que não traçar ações para os pontos de concentração em dias de jogos? Como sustentá-la diante de conflitos entre organizadas de um mesmo clube? Faltam respostas. E a impressão que se tenta passar, no fim, é a de que uma torcida a menos no estádio, mesmo com duas por toda a cidade, resolve o problema.

Debates e teorias pós-violência levam, em geral, à torcida única.
Mas a prática ilustra que matar clássicos não garante mais vidas.

4 comentários:

  1. Vc diz que "não garante mais vidas" até acontecerem situações quais essa última morte no Rio de Janeiro. Quantas brigas, confusões e depredações foram evitadas desde o estabelecimento da "torcida única"? O dito "clássico" é desejo e faz a festa da imprensa comercial, mas ela fica tranquila resguardada nas redações e nas cabines dos estádios, outrossim, não tem que encarar as ruas.

    Mulheres , crianças e famílias que são um público vulnerável , voltaram a frequentar os estádios e estão todos bem dessa forma. Que cada equipe mande jogos aonde quiser e que cada torcida prestigie seu time em segurança tanto no estádio quanto no entorno e no transporte público, sem se preocupar com hordas de arruaceiros à espreita. Mas quem quiser colocar seus familiares numa situação de risco em jogos potencialmente perigosos, depois tem pouco a reclamar por eventuais "infortúnios."
    Espero que publique essa educada discordância!
    Fica o contraponto.

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    1. Está publicado - seria ótimo, no entanto, eu poder citar seu nome nesse diálogo. Da próxima vez, por favor, se identifique! Agradeço a leitura e o interesse em discutir um tema tão complexo e, reconheço, controverso.

      Sinceramente, pelo menos para mim, nada muda. Minha pauta é o jogo. Prefiro estádio cheio e com duas torcidas, logicamente, mas o essencial acontece mesmo com estádio vazio e uma só torcida.

      De qualquer forma, é direito do torcedor assistir ao jogo de seu clube, não acha? A ausência da torcida do oponente te garante segurança? Como ter a certeza de que o malfeitor não agirá duas ruas antes do estádio ou, após o apito final, na estação do metrô?

      Como defendo no texto, a medida tira uma torcida do palco da partida, não das ruas. Não se fala em reforço do monitoramento das vias de acesso, de ações para pontos de concentração, muito menos dos casos de conflitos entre torcidas de um mesmo clube.

      Se a única ação possível para garantir segurança é determinar torcida única, é bem provável que um dia tenhamos jogos ainda mais seguros, devido à ausência de público, e cidades cada vez menos seguras, com malfeitores fora dos estádios e também das prisões.

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  2. O anônimo tem razão. Vocês da imprensa do esporte parecem desconhecer a realidade em que vivem. Talvez porque estejam, como dito acima pelo anônimo, na segurança refrescada pelo ar-condicionado na confortável cabine de tv ou rádio, talvez porquem morem em bairros mais abastados, um pouco mais distantes da realidade da cidade violenta como um todo. De qualquer maneira, alimentam um discurso que beneficia apenas os interesses do futebol. Eu trabalho com jovens de classes sociais diferentes e é uma irresponsabilidade em 2017, numa sociedade que é um barril de pólvora, defender duas torcidas no mesmo estádio em dia de clássico. Uma ir-res-pon-sa-bi-li-da-de. Se colocar uma torcida só não resolve pelo menos atenua e ajuda. Tudo o que se possa fazer é válido. Vocês não estão vendo que as prisões estão super-lotadas e não há lugar nem para quem comete crime mais sério. Eles estão querendo colocar tornozeleira eletrônica até para quem já roubou, furtou e tudo mais para tirá-los da prisão que esta entupida. Do jeito que é, do que a coisa está, vcs acham na prática que eles vão prender alguém que brigou na rua? Na verdade algum tipo de prisão, medida sócio educativa ou algo similar seria o ideal, mas não vão fazer isso. E pode vir com todo o bla bla bla filosófico que for: não vão. Não há policial para isso, a cidade é imensa e lotadas de favelas e bairros distantes, lugares de onde estes jovens de torcidas organizadas-problema geralmente vêm. Então, tudo o que se puder fazer, vale. Torcida única é um elemento que não resolve mas ajuda. Outra, pra resolver o problema mesmo não adianta dizer que basta monitorar torcidas. Ajuda um pouquinho. Mas por si só não funciona. Eles deixam de brigar num ponto e brigam em outro. Mas a imprensa não está nem aí, quer vender o peixe dela ... e disso nós já sabemos.

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    1. Quantas mortes por futebol acontecem, efetivamente, dentro dos estádios? Porque nada impede que, mesmo sem o direito de entrar, os malfeitores continuem frequentando os arredores.

      Mais uma vez: o que garante que conflitos em Carapicuíba, Betim e Contagem em dias de clássicos serão eliminados tirando uma torcida dos estádios em São Paulo e Belo Horizonte? Veja, não se trata das cidades em que ocorrem as partidas.

      Podemos discutir torcida única - e é isso que faço no texto, apresentando minha opinião e argumentos para sustentá-la. Mas, acima de tudo, devemos discutir segurança pública. Por que a caneta que tira a torcida oponente do estádio não reforça o monitoramento?

      O malfeitor - detalhe: não falo do torcedor de bem que também não irá - que estará fora do estádio no dia em que o time dele for visitante e o seu mandante pode te encontrar na rua quando você estiver retornando para casa. Se o time dele for derrotado, cuidado.

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