02/07/2014


Ex-jogador, que transformou sonho em realidade e integrou
esquadrões históricos, inicia trajetória fora das quatro linhas

Vinícius Dias

Confira a foto do Palmeiras, campeão brasileiro em 1994. Veja ainda a do título da Copa Libertadores em 99. E também a do Cruzeiro, campeão da Copa do Brasil em 2000. Há um elemento em comum: Cléber Américo da Conceição, mais conhecido como Clebão. O sonho do garoto belorizontino se tornou realidade nos anos 1980. "Fui, sozinho, fazer o teste na escolinha do Atlético", recorda o ex-zagueiro, que, a seguir, defenderia outros sete clubes e a seleção brasileira.

Cléber Américo: colecionador de títulos
(Créditos: Vinícius Dias/Blog Toque Di Letra)

Atualmente, aos 44 anos, oito depois de 'pendurar as chuteiras', ele vive uma nova fase na carreira. Deixar o futebol, nem pensar. "Vou continuar, embora não esteja mais jogando", afirma. Diretor técnico do União Sport Club, de Itabirito, na Região Central de Minas Gerais, o ex-zagueiro tem o sonho de superar, fora das quatro linhas, sua maior frustração enquanto jogador: a perda do Mundial, em 1999. "Quem sabe, no futuro, eu tenha essa oportunidade", vislumbra.

A infância de grande parte dos principais desportistas brasileiros é permeada por obstáculos. A sua não fugiu muito à regra. Você crê que as dificuldades que viveu logo no início contribuíram para sua afirmação profissional? O futebol era um sonho que sempre esteve no seu imaginário?

O futebol sempre foi um sonho. As dificuldades realmente contribuíram para que eu pudesse me fortalecer, para o meu aprendizado e para o meu crescimento como homem e profissional. Eu tive um tio que foi jogador profissional e me inspirei nele, mas fui, sozinho (e sem qualquer tipo de indicação), fazer o teste na escolinha do Atlético. Iniciei como atacante e, depois de dois anos, quando já havia feito todos os fundamentos dessa posição, tive a oportunidade de jogar na zaga. 

Na verdade, eu seria dispensado e nem cheguei a ser relacionado para disputar a Copa São Paulo. Fiquei aguardando o retorno do time, para conversar com o treinador. Porém, o Flamengo acabou contratando dois dos zagueiros da base do Atlético, e o time voltou desfalcado para a disputa do Campeonato Mineiro. O técnico decidiu me testar na zaga, e me disse que, se fosse bem, eu continuaria jogando. Graças a Deus, as coisas caminharam bem e segui no time.

Você estreou pelo Atlético logo aos 18 anos, num clássico contra o rival Cruzeiro. Em 1991, três anos depois, você foi apontado como craque do futebol mineiro, chegando à seleção brasileira. Podemos dizer que, na carreira do Cléber, tudo aconteceu de forma rápida? Como você lidou com o sucesso?

Como no caso da maioria dos atletas, aconteceu tudo muito rápido mesmo. Aos 18 anos, eu já havia feito jogos profissionais, por exemplo. A minha estreia foi em um clássico contra o Cruzeiro, em Ipatinga, defendendo o time misto do Atlético (que venceu a partida por 4 a 1). Logo depois, aos 19 anos, estreei no Campeonato Mineiro. Realmente as coisas foram muito rápidas, como têm que ser. Porque, no futebol, você tem, realmente, que aproveitar a juventude.

Se você tem um pouco de talento e de força de vontade, você tem que aproveitar a oportunidade. Não me deslumbrei, de maneira alguma. Volto à primeira pergunta. As dificuldades foram tão grandes, mas tão grandes, que me fizeram colocar os pés no chão do início ao fim da minha carreira. Tem oito anos que parei de jogar profissionalmente, estou com a minha vida estabilizada, fruto daquilo que passei na base do Atlético, das dificuldades. Então, sempre procuro manter os pés no chão. Esse é um dos trunfos para tocar a vida.

Voltemos ao ano 2000, à final da Copa do Brasil. A 24 minutos do fim do jogo, o São Paulo abre o placar. Nos acréscimos, o Cruzeiro vira e, no lance seguinte, o tricolor ataca. Quase em cima da linha, você - que, à época, era o capitão - salva o gol que daria o título à equipe paulistana. Aquele foi um dos momentos que marcaram sua carreira profissional?

Com certeza, foi um dos momentos que marcaram a minha carreira. Sempre comento que o Cruzeiro já teve títulos mais importantes, mas esse jogo, em nível de emoção, foi o jogo mais emocionante da história do Cruzeiro que eu tive a oportunidade de participar. Até hoje, a Copa do Brasil de 2000 é lembrada. Graças a Deus, tive a oportunidade de tirar essa bola em cima da linha. O Geovanni fez o gol da vitória, e pudemos passar pelo Cruzeiro e deixar um legado, o nome marcado na história.

De 2010 a 2013, você teve quatro experiências como treinador em equipes do interior de Minas, São Paulo e Santa Catarina. Como foi essa transição após 'pendurar as chuteiras'? De fato, você planeja seguir como treinador?

Foi uma decisão boa. Logo que parei de jogar, tive a oportunidade de iniciar como diretor de futebol no América/MG, depois trabalhei no Mogi Mirim e também no Rio Claro. Na sequência, saí como treinador. Tive duas, três experiências que foram importantes e ajudaram nessa minha nova etapa como profissional. Pretendo seguir como treinador ou diretor técnico. Minha vida foi construída dentro do futebol e vou continuar, embora não esteja mais jogando.

Taça Libertadores, Copa Mercosul, dois Brasileiros, duas Copas do Brasil e cinco estaduais. Ao longo de sua carreira, você conquistou praticamente todos os troféus possíveis aos atletas que atuam em clubes brasileiros. O vice no Mundial Interclubes, em 1999, foi sua maior frustração?

Sim. É um título muito importante e que completaria todo esse currículo, que, graças a Deus, foi adquirido com muito trabalho. Copa Libertadores, Mercosul, os brasileiros, enfim. Mas, sem dúvida nenhuma, fica aquele ar de que faltou ainda um título mundial, que viria com o Palmeiras. Também estive próximo de disputar a Copa de 1994, mas são coisas que passaram, e agora estou nesse novo desafio. Quem sabe, no futuro, eu tenha essa oportunidade fora das quatro linhas.

Eu estava no banco (na derrota para o Manchester United, por 1 a 0), porque tinha machucado o tornozelo no Campeonato Brasileiro, uns três, quatro meses antes da viagem para Tóquio. Por isso, que tive que fazer alguns tratamentos. Consegui me recuperar a tempo de ir para o Japão, mas não mais como titular. Tanto na Copa Libertadores, como no Brasileiro daquele ano, eu havia sido titular e jogado praticamente todos os jogos.

Muito se falou em obras e estádios, que, de fato, ficaram prontos. Porém, com obras marcadas por atrasos e inúmeras denúncias de irregularidades. Qual será, em sua visão, o real legado da Copa do Mundo no Brasil?

O legado não vai ser à altura do que todos nós esperávamos. Acho que não tinha necessidade de o Brasil ter 12 sedes, até porque foi oferecida (a possibilidade de ter) oito sedes. O Brasil insistiu, gastando muito dinheiro onde, na realidade, não vai ter legado. Essa é uma verdade, porque são lugares onde o futebol e o torcedor não têm toda aquela ambição. São gastos que só lá na frente vamos perceber. Uma manutenção de estádio de R$ 2 bilhões é muita coisa.

Pode ser que tenham alguns eventos, shows e jogos do Campeonato Brasileiro, mas acho que não será o suficiente para cobrir toda a despesa. É um legado, com certeza, abaixo do esperado. O (principal) legado é esse momento que estamos vivendo, de apresentar o nosso Brasil para outros países, para os povos que têm vindo aqui e, realmente, ficado maravilhados com nossas praias e com o carinho que o brasileiro tem.

Bate-pronto:

• Cléber por Cléber?

Sou um batalhador, fui um vencedor na carreira. Um cara aberto ao diálogo, autêntico mineiro, que gosta de 'ir pelas beiradas', mas com muito trabalho, muita fé em Deus e na família. Esse é o Cléber que faz tudo pelos filhos e pela família.

• Um ídolo?

Jesus, em primeiro lugar, Nelson Mandela e Martin Luther King.

• Um time histórico?

Sociedade Esportiva Palmeiras. Em especial, os times de 1993 e 1994, altamente técnicos. E o de 1999, campeão da Libertadores. Nesse meio tempo ainda teve o de 1996, que foi o time dos 102 gols (em 30 jogos, no Campeonato Paulista).

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