04/02/2018

Atlético, Cruzeiro e o futebol de heróis e vilões

Vinícius Dias

"Hoje, a gente tem clássico contra o América. Vai estar lotado. Esse time, sem ser do Gilvan, está bom demais", diz o cruzeirense na fila da banca de revistas. "No nosso caso, para mim, só a volta do Kalil resolve", responde, com o jornal nas mãos, o atleticano. Mais do que um encontro informal entre amigos, o bate-papo revela um drama inerente ao futebol: a necessidade de criar heróis e vilões. Ainda que, para ressaltar fins e resultados, torcedores - e, em vários momentos, imprensa - precisem atropelar meios, processos e passar por cima de qualquer sequência lógica.


Porque é excelente notícia a Raposa estar prestes a bater o recorde de público da temporada, que já é seu. Como é a política de preços adotada até o momento - retomando análise publicada em 2014, após a estreia do time tricampeão brasileiro diante de apenas 11.843 pagantes, a receita é levar ao torcedor ao estádio para ver o produto Cruzeiro e, depois, consumi-lo como sócio. Mas também porque, tratando apenas de campo, nem a boa janela da atual diretoria, com Fred e reforços pontuais, deveria transformar em vilão quem contratou ou manteve nove dos 11 titulares.

Kalil e Gilvan: campeões na era dos rótulos
(Créditos: Bruno Cantini/Atlético/Bruno Senna/Cruzeiro)

No caso do atleticano, é preciso ler nas entrelinhas. O discurso diz muito sobre passado e presente. Primeiro, por provavelmente fazer referência apenas ao Kalil multicampeão no segundo mandato, e não ao que teve mais sucesso fora do que dentro de campo no primeiro - tal como Daniel Nepomuceno, o grande nome por trás da futura arena. Depois, por sugerir crítica à atual cúpula e má gestão da expectativa. Se o desempenho no início de Mineiro é o quarto pior no atual formato, a busca por austeridade é um grande passo depois de temporadas de muitos gastos e poucos resultados.

No futebol sedento por heróis e vilões, o derrotado é o debate.
Porque, no fim, é mais fácil apontar o dedo que buscar causas.

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