01/09/2016


Legião gringa no Campeonato Brasileiro tem 61 jogadores de
13 países; Ponte Preta tem, hoje, único elenco 100% nacional

Vinícius Dias

Das defesas do paraguaio Gatito Fernández aos gols do argentino Ramón Ábila e do turco Colin Kazim, passando pelas assistências do equatoriano Cazares, os gramados brasileiros têm, cada vez mais, abrigado sotaques estrangeiros. Conforme levantamento feito pelo Blog Toque Di Letra, o número de gringos no Campeonato Brasileiro da Série A é recorde a essa altura da temporada: 61 jogadores - nos últimos sete meses, outros 20 passaram por clubes da elite. O único elenco 100% nacional é o da Ponte Preta. Por outro lado, Atlético/MG, Botafogo, Coritiba, Flamengo, Santos, São Paulo e Sport têm cinco estrangeiros.


Na relação, há 57 jogadores de países da América do Sul, dois europeus, um africano e um nascido na América Central. "O Brasil é financeiramente atraente. O Campeonato Brasileiro possui muitos clubes com orçamentos significativos em comparação aos demais países sul-americanos", afirma o agente esportivo Luciano Brustolini. Nessa linha, ele cita a valorização das marcas das agremiações locais. "Apesar de ainda não serem organizadas como uma liga, souberam se aproveitar do contexto econômico favorável poucos anos atrás".

Erazo chegou ao Brasil há dois anos
(Créditos: Bruno Cantini/Flickr/Atlético-MG)

No caso de Erazo, por exemplo, o acerto com o Flamengo, em janeiro de 2014, significou a primeira experiência no exterior. "Migrar para o futebol brasileiro é um progresso para quem joga no Equador. Quando eu tive a oportunidade, abracei e graças a Deus estou aqui até hoje", comenta. O zagueiro, que ainda passou pelo Grêmio antes de chegar a BH, é um dos três equatorianos da Série A. Ao lado da Venezuela, o país é o sexto em número de representantes. Argentina, com 20, e Colômbia, com dez, são os líderes atualmente.

Dificuldades de adaptação

Embora a legião gringa no Brasil venha crescendo ano a ano, o histórico indica que esse roteiro nem sempre é garantia de sucesso para atletas e clubes. "O maior problema que vejo é, às vezes, a questão de adaptação. Isso depende do perfil do jogador. Se é mais extrovertido, entrosa mais rapidamente. Se é mais introvertido, demora um pouco", analisa Romildo Bolzan, presidente do Grêmio. "Recentemente, o Atlético/PR importou um indiano que não se adaptou à comida do Brasil. Houve também o caso do chinês Zhizhao no Corinthians, cuja grande dificuldade era comunicação", corrobora Luciano Brustolini.

Ábila e Romero: argentinos na Toca
(Créditos: Washington Alves/Light Press)

A princípio, o idioma também foi barreira para Erazo. "Foi muito difícil meu início no Rio de Janeiro", afirma. Dois anos depois, adaptado e ao lado da família, ele atua como tutor do compatriota Cazares no Atlético. "Procurei ajudar desde o início para que não passasse as mesmas dificuldades que passei", comenta. No rival Cruzeiro, onde joga com mais dois argentinos, Lucas Romero se diz adaptado. "Minha experiência, até aqui, é muito boa. Cheguei há seis meses e sinto como se estivesse em casa", assinalou em entrevista à página da Embaixada Argentina.

Reforços na linha de frente

De acordo com o levantamento, o setor ofensivo domina as importações. Há 22 meias e 19 atacantes gringos na Série A, por exemplo, contra um goleiro. Perguntado sobre o desempenho dos atletas, o jornalista Luciano Silveira, especialista em futebol sul-americano, mede as palavras. "Apenas médio nos últimos anos. Um pouco mais atrás, tivemos Conca, Montillo e D'Alessandro. Os mais destacados hoje são Pratto e Ábila, que inicia uma boa caminhada. Bons jogadores chegaram (ao Brasil), mas ainda falta um pouco para se tornarem ídolos", avalia.

(Arte: Vinícius Dias/Blog Toque Di Letra)

Em relação ao processo de captação, especialmente no futebol argentino, Silveira é otimista. "Hoje se compra melhor do que nos últimos anos e se tem uma visão melhor do que de verdade acontece na Argentina e bons nomes de lá chegam aqui". Entretanto, no geral, ainda vê investimentos errados ou baseados em estereótipos. "Há um pouco de desinformação e muito 'gato por lebre' acaba no Brasil", lamenta.

Divergências nos bastidores

No último ano, fontes ligadas à CBF chegaram a discutir nos bastidores a possibilidade de limitar a chegada de jogadores estrangeiros, tendo como referência o modelo inglês, que associa a inscrição de extacomunitários à passagem por seleção - dos 61 registrados por equipes da elite no Brasil, somente 30 têm histórico de convocação. A proposta, contudo, não teve repercussão positiva. "Quando você traz um atleta de bom nível e ele dá certo aqui, qualifica o futebol", aponta o presidente do Grêmio, rejeitando iniciativas no sentido de reserva de mercado.

De seleção: turco Kazim, do Coritiba
(Créditos: Coritiba F.C./Divulgação)

Discurso ressaltado por Luciano Brustolini, que enxerga a restrição como necessária apenas quando há déficit na formação. "Estamos em expansão do produto Campeonato Brasileiro, e a formação de atletas no Brasil é de altíssimo nível". O agente diz que mesmo na Inglaterra o modelo tem sido questionado. "A ideia é que os próprios clubes sejam responsáveis pelos critérios de investimentos em transferências de atletas. Clubes fortes, liga forte". Desde 2014, os clubes brasileiros podem escalar até cinco gringos por partida em competições nacionais. Anteriormente, o limite fixado pela CBF era de três atletas.

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