09/03/2018


Dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol apontam
17 episódios em competições desde 2014, com apenas três punições

Vinícius Dias

No próximo dia 21 de março, data que marca a luta internacional pela eliminação da discriminação racial, o futebol sul-americano não terá motivos para comemorar. De acordo com levantamento realizado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, desde 2014 foram registradas 17 denúncias de injúria racial contra jogadores e clubes brasileiros em competições realizadas pela Conmebol. Desses casos, no entanto, apenas três foram punidos pelo Tribunal de Disciplina da entidade.


O episódio envolvendo o ex-cruzeirense Tinga, em jogo contra o Real Garcilaso, no Peru, abre a lista. "Curiosamente, o Observatório nasceu em 2014, logo após os sucessivos casos de discriminação racial divulgados pela mídia, entre eles esse contra o Tinga", destaca ao Blog Toque Di Letra o diretor-executivo Marcelo Carvalho. Há, ainda, o do preparador de goleiros Juan Carlos Gambandé, demitido pelo Racing após gestos direcionados à torcida do Atlético, em 2016, na Arena Independência.

Atlético, em 2016, e Tinga, em 2014: vítimas
(Créditos: Bruno Cantini/Atlético/Washington Alves/Light Press)

Se o ato protagonizado pelos torcedores contra o volante Tinga significou multa de US$ 12 mil ao Real Garcilaso, o protagonizado pelo argentino foi apenas um dos 14 que, conforme o levantamento, terminaram sem punições: 82,4% dos casos. "Nossa interpretação é de que o futebol sul-americano pouco se importa com problemas extracampo, incluindo casos de racismo. Há pouca punição a violência, dentro e fora de campo, e não é sensível à questão do preconceito e discriminação", lamenta Carvalho.

Libertadores é recordista em casos

O raio-X aponta 11 casos na Copa Libertadores, três no Sul-Americano sub-20, dois na Copa Sul-Americana e um na Recopa Sul-Americana. 2017 foi a temporada com mais registros: seis. Neste ano, já aconteceram três. A escalada incomoda o pesquisador. "Mesmo que estejam previstas punições como jogar com portões fechados, proibição de atuar em determinado estádio, concessão da vitória ao adversário e até desclassificação, nos três casos punidos foram aplicadas multas de até US$ 15 mil".

(Arte: Vinícius Dias/Blog Toque Di Letra)

Para Marcelo Carvalho, o sucesso da mobilização passa por transformá-la em uma luta de todos. "É importante que os atletas, envolvidos ou não, cobrem atitudes duras das entidades, de seus clubes e que não se silenciem diante de ofensas raciais", pontua. "Em curto prazo, a medida mais eficiente é punir os envolvidos com penas severas, que atinjam os clubes. Em paralelo, é urgente que sejam desenvolvidas campanhas de combate. A punição é importante, mas não basta. É preciso educar", emenda.

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